Em mais de 50 anos de uma série predominantemente masculina, a franquia Kamen Rider tem entre seus heróis e vilões homens que amam homens (HAH) — para o melhor ou para o pior.
Kamen Rider é uma franquia de mídia de super-heróis japonesa que consiste em séries de televisão, filmes, mangás e animes do gênero tokusatsu (o que comumente chamamos de "super-heróis japoneses" no ocidente), criada pelo artista de mangá Shotaro Ishinomori. A mídia Kamen Rider geralmente gira em torno de super-heróis motociclistas com tema de inseto.
A franquia começou em 1971 com a série de televisão Kamen Rider, que mostrava o estudante universitário Takeshi Hongo e sua busca para derrotar a organização Shocker, que intentava conquistar o mundo. A série original gerou sequências para televisão e cinema e lançou o Segundo Boom Kaiju (também conhecido como Boom Henshin) na televisão japonesa no início da década de 1970, impactando os gêneros de super-heróis e ação e aventura no Japão, criando e também nomeando seu próprio subgênero de tokusatsu, os chamados "heróis henshin" (henshin quer dizer "metamorfose" em japonês), em que o herói precisa alterar sua fisiologia para acessar seus super-poderes (a maioria dos Kamen Riders precisa enunciar "Henshin!" para realizar a transformação).
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| Henshin!! Issamu Minami se transforma em Kamen Rider Black! |
Subtexto e representação HAH em Kamen Rider
A Toei, empresa controladora da enorme franquia Kamen Rider, descreveu Kamen Rider Build (2017) como um "drama acalorado entre homens". Essa declaração provavelmente não foi feita para descrever a (evidente) tensão homoerótica entre os dois protagonistas masculinos da série (Sento Kiryu e Ryuga Banjoh [ambos são conhecidos no fandom boys love (BL), o primeiro por interpretar Mob, o protagonista central da série A Man Who Defies the World of BL em 2021, e o último por interpretar o protagonista Kiyoshi Adachi na série Cherry Magic! Thirty Years of Virginity Can Make You a Wizard?! em 2020 baseada no mangá homônimo]), mas se tornou um meme no fandom ocidental de Kamen Rider — e por um bom motivo. Muitas iterações da franquia apresentam relacionamentos emocionais íntimos entre homens, e esses relacionamentos frequentemente beiram a codificação homo* que é fortemente aparente para um público HAH.
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| Sento Kiryu (no alto) e Ryuga Banjoh (emaixo) no "drama acalorado entre homens" Kamen Rider Build |
Representação implícita: o herói codificado
A configuração de Kamen Rider naturalmente se presta à homocodificação. O ponto crucial de cada série segue o mesmo formato: um homem, ou vários homens, ganha(m) o poder de se tornar um Kamen Rider e usa(m) esse poder para lutar contra o mal. Ocasionalmente, uma mulher recebe esse poder, mas quase nunca como personagem principal (Pretty Den-O, um especial de 20 minutos lançado em 2020, é a primeira mídia de Kamen Rider a apresentar uma protagonista feminina). Há também a estrutura bem usada do "Rider secundário", que ganha quase tanto tempo de tela quanto o personagem principal e, muitas vezes, se torna muito próximo dele. Adicione a isso que a maioria desses personagens masculinos são jovens e atraentes, e as faíscas começam a voar.
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| Chase (Kamen Rider Chaser, esq.) e Goh Shijima (Kamen Rider Mach, dir.): de subtexto à [semi]canonização (leia sobre eles mais abaixo) |
O elenco principal de quatro Riders de Kamen Rider Blade (2004) frequentemente se desvia para o subtexto romântico, e em nenhum lugar isso fica mais claro do que entre o protagonista Kazuma Kenzaki, o titular Kamen Rider Blade, e o "Undead" Hajime Aikawa, que depois se torna o Kamen Rider Chalice (os "Undead", "Não-mortos" ou "Desmortos", são uma raça de monstros imortais em Blade). A alegoria de monstros há muito tempo é associada a personagens homos. A ideia de isolamento e alteridade permeia a ficção de monstros, experiências familiares para leitores não-héteros (homo/bi). Ela reflete nossos medos de rejeição pela sociedade e nossa alienação da vida dita "normal".
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| Kyosui Izumi de Kamen Rider W |
O final de Kamen Rider Blade tem todas as características de um romance trágico. Para salvar a vida de Hajime, Kenzaki se torna um Undead – mas, apesar de ambos agora terem vida eterna, eles nunca mais poderão se encontrar, ou poderão causar o fim do mundo. Em 2018, a história foi revisitada na temporada de aniversário Kamen Rider Zi-O e os personagens foram reunidos, dando uma conclusão depois de 14 anos para seu relacionamento. Isso culmina em um final simpático em um gênero onde, com muita frequência, o monstro está condenado em sua existência.
Kamen Rider Kuuga (2000) pode não ter um Rider secundário, mas o relacionamento entre o protagonista Yusuke Godai e o inspetor da polícia Kaoru Ichijoh é similarmente emblemático do subtexto homoafetivo de Kamen Rider. Sozinho em sua habilidade de lutar contra os malignos Gurongi, Godai é constantemente apoiado pelo policial Ichijoh. A química deles não passa despercebida na série; e outros personagens frequentemente perguntam como está a "namorada" de Ichijoh, apesar de seus protestos alheios de que ele não tem uma. É claro que eles gostam da companhia um do outro, encontrando consolo mutuamente. A série não vai além de dicas sutis, mas para um público de espectadores HAH bem versados em representações censuradas de amor, há um claro significado romântico em seu relacionamento.
Pessoalmente, acho que a representação implícita de Kamen Rider é boa e ruim. Por um lado, é uma chance de ver homens em relacionamentos íntimos sem estereótipos 'gays' prejudiciais. Por outro, a recusa dos seriados em reconhecer qualquer química romântica é um lembrete afiado aos espectadores HAH de que nosso amor ainda é muito controverso para ser reconhecido em um programa familiar. Isso, junto com o vilão afetado ocasional, dá uma nota amarga a toda a provação.
Representação explícita: dois passos para frente, um passo para trás
Nos últimos anos, Kamen Rider fez avanços hesitantes em sua representação homoafetiva masculina. Entre representações menos indulgentes de vilões afetados, personagens HAH retratados positivamente estão sendo permitidos aos holofotes. Essas representações, embora ainda marcadas por circunstâncias nada ideais, são algo maravilhoso de se ver em uma franquia tão monolítica.
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| Miyuki Tezuka (Kamen Rider Raia, esq.) e Jun Shibaura (Kamen Rider Gai, dir.) formam um casal canônico |
Dezessete anos após o lançamento de Kamen Rider Ryuki (2002), os personagens secundários dessa série Miyuki Tezuka (Kamen Rider Raia) e Jun Shibaura (Kamen Rider Gai) foram mostrados juntos em um relacionamento romântico em Kamen Rider Zi-O (2018-2019), até mesmo fazendo sexo (vídeo abaixo) — tornando-os os primeiros personagens de Kamen Rider a estar explicitamente em um relacionamento do mesmo sexo. Pouco depois, eles se traem mutuamente e ambos morrem. Isso deu uma reviravolta mórbida a uma ocasião tão importante. As escolhas contínuas feitas pela franquia de ter apenas personagens HAH sendo maus ou mortos — ou ambos — minam qualquer tentativa de progressividade.
Ainda em Kamen Rider Zi-O, mas apenas no spin-off Rider Time: Kamen Rider Zi-O VS Decade, foi-se revelado que (o andrógino) Heure ("Hora" em francês), inicialmente um vilão que se transforma no monstro Another Kikai, contraparte maligna de Kamen Rider Kikai, tinha uma queda por Sougo Tokiwa, o protagonista principal de Kamen Rider Zi-O, e desejava entregar uma carta de amor para ele, esperando que ele correspondesse aos seus sentimentos. Originalmente inimigos, Heure consegue ganhar a amizade de Sougo depois de ser traído por Swartz, o antagonista principal da série. Quando Heure foi morto por Ora ("Hora" em italiano), uma colega vilã que também o trai, isso enfurece Sougo enquanto ele derrota Another Drive (a forma monstro de Ora) sem piedade. Sougo mais tarde ficou de luto por Heure quando este não resistiu aos ferimentos. Depois que Sougo, agora como Kamen Rider Ohma Zi-O, reiniciou o mundo e todos vivem uma vida normal, Heure frequentava a mesma escola que Sougo, revelando-se então estar apaixonado por ele. Infelizmente, porém, Sougo faz de tudo para evitá-lo, e Heure acaba sendo morto nessa linha do tempo também, e, pior, por uma versão infantil do próprio Sougo, o homem que ele ama.
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| Heure and Sougo Tokiwa de Kamen Rider Zi-O |
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| Chase (Kamen Rider Chaser, esq.) e Goh Shijima (Kamen Rider Mach, dir.) na capa do CD drama 'Drive Saga Kamen Rider Mach Dream Story' |
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| Masa, o Kumo Augment-01 |
Além desses, há alguns Kamen Riders menores que, como travestis, flertam mais com a variância de gênero do que com o amor masculino (meu foco aqui), e praticamente existem mais para alívio cômico do que para qualquer outra coisa: o confeiteiro Oren Pierre Alfonzo, o Kamen Rider Bravo em Kamen Rider Gaim (2013), e o mercenário assassino Yukimura Belial Grunstein, o Kamen Rider Proto Bravo na peça teatral (depois lançada em DVD/Blu-Ray) Kamen Rider Zangetsu: -Gaim Gaiden- (2019). Como de praxe, ambos se apaixonam por homens, mas nunca são correspondidos.
Ah, há ainda o Kamen Rider Gay! Só que de "Gay" ele tem só o nome mesmo, pois o kanji com que se escreve o seu nome, 凱 (Gai), significa "Triunfo, Vitória" — e o motivo de o nome estar escrito "Gay" na ilustração desenhada em 1993 para uma cancelada sequência de Kamen Rider ZO eu não consegui descobrir. Curiosamente, Kamen Rider Gai é a identidade Rider de Jun Shibaura, sobre quem você já leu mais acima, embora eles não tenham nada a ver um com o outro, já que o nome deste Gai não é escrito com aquele kanji, mas com ideogramas katakana (ガイ, Gai).
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| Miyuki Tezuka (Kamen Rider Raia) e Jun Shibaura (Kamen Rider Gai) quando jovens |
Kamen Rider está lentamente se modernizando, mas essa representação embaçada prejudica tanto a franquia quanto o espectador. Para o público jovem impressionável, representações negativas do amor masculino podem levar os espectadores ainda mais para o armário ou promover estereótipos pré-existentes.
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| A Toei durante o Mês do Orgulho no X/Twitter |
Exemplos positivos de representação homoafetiva são vitais para o público jovem ver, e Kamen Rider é, antes de tudo, um programa familiar. Retratos simpáticos e sensíveis de homens que amam homens em Kamen Rider seriam vistos por centenas de milhares de garotos, uma experiência não oferecida a homens adultos homo- e biafetivos em sua juventude. Eu sei que se eu tivesse visto personagens HAH na televisão antes, eu teria entendido melhor minhas próprias apreensões e pensamentos sobre como eu me vejo. Ao se limitar a mostrar apenas uma faceta da experiência humana, Kamen Rider limita seu potencial como um meio de contar histórias e decepciona seu público.
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| Chase (Kamen Rider Chaser, esq.) e Goh Shijima (Kamen Rider Mach, dir.) |
Nota:
* Codificação homo ou Homocodificação: atribuição de características estereotipicamente homoafetivas a personagens fictícios sem declarar explicitamente que eles são homoafetivos.
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![Goh Shijima (Kamen Rider Mach, dir.) e Chase (Kamen Rider Chaser, esq.): de subtexto à [semi]canonização (leia sobre eles mais abaixo) Go Shijima and Chase, Kamen Rider Mach and Kamen Rider Chaser](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhmf7DlqOGUBHo137z4q8L8R7el65BKZeOQK_GdLJSjAmfMFvpxS0ndNEITDG7mimUPX6LkTIDOS49KemBQ5OSgsibJZTuyaXN0BfzA6LatrvorcDqVwmqKEQToPkjv8ccFNF0U4aDaeHtWDcsozwLI3z4bR8VSOUVc0k1ivg-6xIPMLt-OYLIXhjUxUSs/w320-h320/Go%20Shijima%20and%20Chase,%20Kamen%20Rider%20Mach%20and%20Kamen%20Rider%20Chaser%20(2).jpg)
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