31 outubro 2026

'Clayface' (filme): Matt Hagen é baseado no primeiro Cara-de-Barro bissexual da DC, mas foi heterossexualizado (sem spoilers)


 Com o lançamento do filme Clayface nos cinemas apresentando o protagonista Matt Hagen como hétero, fica a pergunta: por que Cara-de-Barro não teve um relacionamento homoafetivo como na estória animada original em que o filme foi baseado?

Os vilões do Batman, assim como os monstros do cinema, tendem a ser manifestações de nossos medos e traumas coletivos, frequentemente representando os excluídos, os desajustados e "os outros" que foram rejeitados pela sociedade e forçados a viver nas sombras. Não por menos, muitos deles têm sido interpretados como exemplos do chamado "subtexto gay" na ficção, estando o próprio Batman inserido nisso.

Clayface (Cara-de-Barro), Matt Hagen and Teddy Lupus boyfriends, namorados, Batman The Animated Series

Ao longo dos anos, muitas adaptações da DC Comics insinuaram ou até mesmo confirmaram explicitamente interpretações homoafetivas dos inimigos do Cavaleiro das Trevas. Por exemplo, a sedutora ecoterrorista Hera Venenosa é canonicamente bissexual e tem um relacionamento com Arlequina tanto nos quadrinhos como na série animada homônima da princesa palhaça. Enquanto isso, o drama live-action da Fox, Gotham, escalou atores homoafetivos para alguns dos papéis mais importantes da galeria de vilões, como Cory Michael Smith no papel do Charada e Robin Lord Taylor como o Pinguim, tendo ambos se envolvido em um romance complicado na tela.

E agora outro vilão entra em cena com Clayface (Cara-de-Barro no Brasil), um filme de terror corporal (body horror) para o cinema, estrelado por Tom Rhys Harries, que se concentra em um dos inimigos mais fascinantes e complexos do Batman.


À medida que as reações sociais começam a surgir, uma em particular chamou atenção: o crítico de cinema Griffin Schiller fez uma resenha no X, observando que o filme, de forma frustrante, "aborda ideias genuinamente instigantes sobre expectativas sociais, identidade reprimida, representatividade 'queer' na mídia, disforia de gênero e visibilidade por meio da arte", sem explorá-las em todo o seu potencial (veja abaixo).

Como era de se esperar, a publicação recebeu muita atenção negativa de fãs héteros que não conseguem conceber o fato de que um de seus personagens favoritos, que foi heterossexualizado para o cinema, possa ser percebido como homo, ou que espectadores que amam o mesmo sexo possam se ver representados nessa história.

Tom Rhys Harries as Matt Hagen, aka Clayface, Cara-de-Barro

E por que não deveríamos? Clayface conta a história de um homem que, após ser desfigurado em um terrível acidente, se submete a um tratamento experimental que transforma seu corpo em uma substância semelhante a argila, concedendo-lhe habilidades sobre-humanas de metamorfose. As metáforas estão bem ali, às claras!

Mas se você investigar um pouco mais a fundo, vai perceber que o Cara-de-Barro também tem uma história bem peculiar…

Clayface (Cara-de-Barro), Matt Hagen and Teddy Lupus boyfriends, namorados, Batman The Animated Series

A história de origem HAH de Cara-de-Barro

Como a maioria dos personagens de quadrinhos, o Cara-de-Barro assumiu muitas formas diferentes nas mídias da DC Comics, aparecendo pela primeira vez em 1940 como Basil Karlo, um ator descontente que veste sua fantasia de monstro de filme e começa a eliminar seus colegas de elenco quando descobre que não estará no remake.

Outra versão do personagem, Matt Hagen, foi apresentada em 1960 como um caçador de tesouros que ganhou poderes após se deparar com uma caverna com uma piscina radioativa — doideira clássica dos quadrinhos de super-heróis!

No entanto, foi Batman: The Animated Series ("Batman: A Série Animada" no Brasil), nos anos 90, que nos deu uma das interpretações mais icônicas do personagem, usando o nome Matt Hagen, mas retornando às origens de Cara-de-Barro como um ator problemático. Sua história de origem se desenrola no episódio duplo da primeira temporada, "Feat Of Clay" ("A Proeza do Barro"), amplamente considerado um dos melhores episódios da série e que foi influência direta no filme Clayface.

Clayface (Cara-de-Barro), Matt Hagen and Teddy Lupus boyfriends, namorados, Batman The Animated Series

Neste mundo de animação noir, Matt (voz de Ron Perlman) é um astro de cinema de sucesso que fica desfigurado em um acidente e recorre a um creme de beleza ultrassecreto chamado Renuyu, que restaura sua boa aparência natural — embora apenas temporariamente — e também lhe dá a habilidade incipiente de se transformar em outras pessoas.

Temendo perder a carreira, Matt está tão desesperado por mais creme que concorda em fazer o trabalho sujo para o CEO corrupto Roland Daggett, que produz o Renuyu. O trabalho começa com pequenos crimes e vai se intensificando, chegando a ordens cada vez mais perigosas. Quando seu vício em Renuyu sai do controle, o CEO ordena que seus capangas o forcem a beber o creme para tentar matá-lo, o que apenas acelera sua transformação em um monstro gigantesco de argila em busca de vingança, que cruza o caminho do Batman (dublado pelo falecido ator homoafetivo Kevin Conroy).


Como acontece com muitos vilões do Batman, a história de origem do Cara-de-Barro é uma tragédia, à medida que descobrimos as circunstâncias que o levaram a um caminho sombrio. Ele se torna ainda mais humano graças ao seu relacionamento com seu dublê e "colega de quarto" ("roommate"), Teddy Lupus (Dick Gautier).

Embora um desenho animado dos anos 90 voltado para o público jovem não fosse dizer isso explicitamente, agora fica óbvio que Matt e Teddy são representados como um casal. Afinal, Teddy é a única pessoa em quem ele confia o suficiente para se abrir sobre sua situação assustadora, e quando as coisas começam a sair do controle, Teddy o assegura de que ele não vai a lugar nenhum, que eles podem superar isso juntos: "Você pode seguir em frente! Nós podemos seguir em frente", ele diz enfaticamente a Matt.

Mas Matt está perturbado demais, assustado demais, com tanta aversão a si mesmo que não consegue aceitar o amor e o apoio do homem bem à sua frente, o que o acaba levando por um caminho fadado ao fracasso rumo à vilania.

Clayface (Cara-de-Barro), Matt Hagen and Teddy Lupus boyfriends, namorados, Batman The Animated Series

Nos anos que se seguiram, os criadores envolvidos no episódio duplo confirmaram que Matt e Teddy foram concebidos como um casal romântico. Durante uma participação ao vivo no podcast Batman: The Animated Podcast na Comic-Con de 2017, o diretor Kevin Altieri (a partir de 38:48) se referiu a Teddy como namorado de Matt, dizendo: "Aquele foi intencionalmente um relacionamento gay", concordando que se desenrolava como "uma peça sombria", à la Tennessee Williams, o lendário dramaturgo homo.

Há também o fato de que isso aconteceu no início dos anos 90, no auge da crise da AIDS nos EUA. A reação de Matt à sua aflição física — perdendo a vontade de viver, mergulhando em um estado de profunda tristeza e afastando ainda mais a pessoa amada — é um reflexo assombroso do que muitos homens homoafetivos estavam passando naquela época.

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E não parece ser coincidência que um dos capangas do CEO Roland Daggett se chame Germs ("Germes" em português), um bandido que tem um medo explícito de pegar uma infecção, principalmente do que quer que esteja transformando o corpo de Matt. Essa é uma alusão bastante óbvia a como homens com AIDS eram, infelizmente, frequentemente recebidos com apreensão ou repulsa, e a desinformação sobre a doença era ainda mais alimentada pela homofobia cultural.

Essa versão do Cara-de-Barro teve uma grande influência nas representações do personagem na mídia desde então. Embora seja uma abordagem muito mais leve, a irreverente série Harley Quinn (Arlequina no Brasil) deixa bem claro que sua versão do Cara-de-Barro tem fluidez sexual, incluindo uma trama em que Basil Karlo assume a forma de uma garota e namora um colega da faculdade chamado Chad, por quem se apaixona.

E embora não pareça que o novo filme Clayface, estrelado por Tom Rhys Harries, traga à tona qualquer subtexto 'gay', isso não significa que essa abordagem singular do filme do vilão/anti-herói não vá repercutir no público homo/bi.

Afinal, assim como o próprio Cara-de-Barro, a cultura pop é uma metamorfose que nos convida a encontrar nossas próprias histórias dentro dela.

Fonte: Queerty

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